O último dia

pais filhos

Último treino da época. As sensações misturam-se porque, ao mesmo tempo que fechamos um ciclo já outro se abriu. O tempo, realmente, nunca pára.

Esta temporada foi, acima de tudo, um resolver de dúvidas. Desde o encontrar da forma de estar dentro do treino e do jogo, até ao saber como nos relacionar construtivamente com um grupo de pequenos atletas. Compreender, de certa forma, aquilo que é realmente importante para eles, em primeiro lugar, e para o seu futuro no desporto, em segundo. Estabelecer prioridades, elaborar estratégias, construir gente que vai crescendo.

Durante a época, assumi que o melhor que podemos fazer é aprender a ver. Olhando para aqueles que estão dentro do processo de treino há mais anos, olhando para quem se senta no banco do adversário, olhando para os miúdos que vão correndo, nos treinos e nos jogos, em busca da felicidade. Sempre aprendi imenso a olhar e a ver e assim vai continuar a ser.

Outra coisa assumida é que não podemos ser aquilo que não somos realmente. De nada vale criarmos personagens para estar dentro de um processo tão emocional e pessoal como é o treino. Temos que levar lá para dentro aquilo que somos. Aprender a jogar com isso. Daí que quando enfrentamos processos de formação onde nos tentam dizer como nos comportar neste ou naquele quadro, julgo sempre que as fórmulas não são solução. Tens que lá ir com o que tens. E fazer o melhor que possas com isso.

Finalmente, confirmar que os processos de estágio são uma falsidade com que nos tentam impregnar a existência. Que uma pessoa formada precisa de um estágio. Não precisa. Precisa de estar no campo. Precisa de compreender. Precisa de ler muito mais sobre tudo aquilo que lhe aparece como dúvida. Precisa de se questionar. Precisa de ter dúvidas. Precisa de acreditar. Por isso é que os estágios servem de muito para quem faz tudo isso. E não servem para nada para quem acha que sabe tudo.

Último treino da época. Enquanto se dá atenção àqueles que, por uma derradeira vez, são os “nossos” jogadores, a cabeça já está no futuro. Será por lá que nos encontraremos.

A competição de basquetebol no escalão de Sub-14 Masculinos: estudo de caso e proposta de reformulação

formaçao

A problemática da competição para crianças e jovens é um tema bastante explorado na literatura e que se mantém vivo na sua expressão prática. Neste trabalho, tenho por objetivo analisar uma competição de basquetebol, no escalão de Sub-14 Masculinos, sublinhando vantagens e desvantagens dos quadros competitivos atuais, ao mesmo tempo que aponto soluções para uma reformulação dos mesmos.

A análise baseia-se, sobretudo, em trabalho de campo realizado durante a presente temporada. Fazendo parte de uma equipa que compete neste escalão, como um dos técnicos responsáveis, tenho tido a oportunidade de, semanalmente, contrastar aquilo que é conceito teórico e o que é prática comum. Para além da competição própria da minha equipa, tenho tido ainda a oportunidade de observar diversos encontros de outras equipas, dentro e fora do distrito, o que permite compreender de uma forma mais alargada que boa parte dos problemas dos quadros competitivos se repetem pelos diferentes distritos e acabam por se resumir, de forma clara, nos resultados entre equipas observados na fase nacional, onde o desequilíbrio é nota.

De uma forma breve, o enquadramento competitivo copiado daquilo que é a competição para adultos, a fragilidade das normas adaptadas para a prática do jogo nestas idades e o desnível encontrado em boa parte das partidas, leva-nos a compreender a urgência de encontrar outros modos de colocar as nossas crianças e jovens perante a competição, sempre com o objetivo de possibilitar, para cada um conforme o seu nível, oportunidades de evolução, satisfação e realização pessoal.

Trabalho completo em pdf: Cristovao A competição de basquetebol no escalão de Sub14

Quadros competitivos propostos para as duas primeiras fases da temporada em pdf: Quadros Competitivos

Semana 38: um cesto no último segundo

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Quando aquele atleta que escolhe o momento de se dedicar com maior ou menor intensidade ao treino consegue um cesto decisivo no último segundo, então ele está no processo de conquista da confiança necessária para tomar decisões.

Se o treino pertence ao domínio do controlo do treinador, o jogo está no domínio do controlo do jogador. Por muito que o treinador tente simular o contexto competitivo em treino, aquilo que acontece num campo é muito mais parecido com o que nos acontece na vida: estamos continuamente perante o processo de ter que tomar decisões.

O jogador não se dedica suficientemente a determinados exercícios? Está demasiadas vezes “cansado”? Poupa-se em ações que lhe parecem menos interessantes para estar em melhores condições para o momento de jogo no treino? É humano. Lidemos com isso com a naturalidade que os seres humanos merecem, transmitindo-lhes os melhores caminhos para atingir determinados fins, ainda que sempre conscientes que a responsabilidade da escolha é deles.

Quando, então, aquele atleta consegue um cesto decisivo no último segundo, estamos a ter sucesso. Ele pode falar-lhe de sorte, mas a verdade é que ele está perante uma situação em que testou a sua confiança e teve sucesso. O treinador, aparentemente, tem a situação fora do seu controlo. O treinador está a fazer o seu trabalho.

Amanhã há treino.

Semana 37: O relógio marca o tempo

marcadorSabemos perfeitamente ao que vamos quando temos reservada receção com piada, a lembrar que a situação ali é competitiva, independentemente de estar em causa crianças em formação que têm o desporto como uma atividade de lazer e não jogada para ganhar. Mas não custa a entender, claro que não, até porque estamos no “inferno”, a mensagem na parede assim nos lembra. O que não lembra ao diabo é estarmos sempre mais preparados para assinalar as fraquezas e os problemas dos outros, quando, tenho-o certo, é no focar da atenção nas nossas dificuldades que aprendemos muito mais sobre o que vai ser o nosso futuro.

O relógio marca o tempo, mas, aparentemente, em tarde de Benfica campeão, um jogo de miúdos que deveria ser uma festa conta muito pouco, por isso não há qualquer problema de cortar uns segundos nos descontos de tempo, às vezes três, outras vezes cinco, outras sete, até porque os treinadores, esses abusadores, sempre fazem das suas e ainda se corria o risco de não ver o primeiro zero do empate de Guimarães.

Mas o relógio que nos interessa realmente é o da evolução dos nossos jogadores. Numa semana particularmente difícil, em que os testes e os exames nacionais começam a levar os pais a optar por uma (in)disciplina espartana, transformando as obrigações sociais dos seus filhos em obrigação de ficar em casa a estudar, ressente-se o treino com as faltas de vários atletas. Não deixa, no entanto, de ser oportunidade para entender que os poucos são os melhores, pela dedicação que apresentam a cada sessão e pelas coisas que vão conseguindo fazer. Sim, agora somos uma equipa de basquetebol, e por momentos, as nossas crianças deram ares de garra e entrega ao treino ao nível da Euroliga. Nem o Pablo Laso nos poderá desmentir.

Amanhã há treino.

Semana 36: Porque nos fartamos disto

97341927000806330312Faço, esta semana, um intervalo nas reflexões sobre a formação. Falo antes da confusão que vai lançada nos quadros competitivos nacionais.

Os exemplos são mais que muitos. No Campeonato Distrital de Sub-14 Masculinos, a organização dos grupos para a 5ª fase não correspondeu ao programado. No mesmo escalão, em Femininos, as equipas do Distrito de Lisboa que foram eliminadas na primeira fase do Nacional tiveram, também, direito a apenas um grupo de três equipas para manter-se em competição durante o mês de maio.

Na Taça Nacional de Séniores Masculinos, os sorteios relativos aos quartos-de-final da Zona Sul não respeitaram o que estava agendado na Conferência do Calendário, o mesmo acontecendo na Taça Nacional de Sub-20 Masculinos. Por outro lado, no Campeonato Nacional de Sub-20, terão também existido desencontros na forma como as equipas e os resultados são apurados entre fases.

A cada semana, parece-se encontrar sempre mais alguém que tem queixas relativas a questões semelhantes. Tornou-se impossível para quem programa o trabalho com as respetivas equipas poder estar seguro daquilo que se irá passar na fase seguinte. A frase “logo veremos como vai ser” parece ter entrado, definitivamente, no léxico do basquetebol português. E, para mim, o “logo se vê” é, na prática, uma contradição à organização e planeamento de uma época desportiva.

Por isso, quando nos perguntam, com solenidade, por propostas que possam vir a mudar o basquetebol nacional, lembramo-nos que a mudança nunca será completa quando a maioria não quiser realmente mudar. E como a maioria, ao que parece, vai estando representada nas associações e na federação de forma consistente e consciente com aquilo que se vai passando, então não é difícil perceber porque nos fartamos disto.

Semana 35: Perceber a ironia

playball

Os nossos atletas ainda não percebem a ironia que é deixar-lhes fazer aquilo que eles querem fazer num treino. Numa semana em que, depois de um fim-de-semana com dois jogos, estávamos limitado a duas sessões, com um feriado a intervalar entre esse último treino e o momento competitivo, a capacidade de concentração dos atletas estava em mínimos históricos. Para além do mais, com uma quinta-feira a coincidir com véspera de feriado, não era preciso muito para entender que já estava toda a gente em fim-de-semana.

Nestes momentos, aumentam as situações em que os atletas não estão a cumprir com as necessidades. O caso do miúdo que revela sempre enorme exasperação perante a mínima contrariedade, o caso do outro miúdo para quem tudo é apenas brincadeira, um terceiro caso em que as situações de “pausa” são sempre aproveitadas para fazer sobressair o seu enfado com as exigências. Perante tudo isso, agiu-se com a ironia, “oferecendo-lhes” meia hora de jogo sem condicionantes.

Eles não perceberam a ironia, não entenderam que se tratava de um castigo, embora aqui ou ali tenham revelado natural espanto pelo baixar radical da exigência. No entanto, esse momento acabou por ser bastante válido num sentido totalmente inverso: libertos dos constrições do treino, os atletas entregaram-se ao jogo, expondo-se nas suas fragilidades, mas competindo abertamente pelo resultado, exigindo aos colegas o fazer melhor, aproveitando cada minuto para estar em atividade e saborear o divertimento do jogar.

Os treinadores, sim, perceberam a ironia disto tudo.

Amanhã há treino.

Semana 34: Talvez não te devesses preocupar tanto com o jogo

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Semana após semana vou encontrando nos pavilhões gente e mais gente imensa e intensamente preocupada com o jogo. Começa pelos próprios quadros competitivos que vão sugerindo que os atletas façam mais de um jogo por fim-de-semana. Formaliza-se na pressão de treinadores e pais para que exista uma disponibilidades dos jovens para o “jogo”, focando no “jogo” o momento alto da semana de prática. Consubstancia-se na atitude com que treinadores, seccionistas e famílias se apresentam para os ditos jogos, criando situações de stress elevado para jovens que deviam estar nas respetivas modalidades para, acima de tudo, se divertirem.

No entanto, o final acaba por ser sempre o mesmo. De uma forma genérica, quem ganha, sai satisfeito, quem perde, sai desgostoso com o resultado. Esquecemo-nos, quase de forma religiosa, que o jogo, em si, vale exatamente o mesmo que cada sessão de treino, que cada oportunidade que os jovens têm para praticar a modalidade. E esquecemo-nos, fundamentalmente, de que o jogo encerra uma quantidade de experiências ricas e válidas que devem ser valorizadas a cada momento.

Uma atitude solidária ou cooperativa com um colega em dificuldades, a aceitação do erro do outro, o comportamento perante o desafio de dificuldade mais elevada, tudo isto são coisas que deveriam ser valorizadas de forma tão intensa quanto um cesto que entrou. Conseguir estabelecer o quadro ideal para que os jovens compreendam e aceitem isso mesmo é a obrigação que, dia após dia, um treinador deve ter.

No final das contas, o jogo, sobretudo nos escalões mais baixos, tem muito pouco a ver com a modalidade que o jovem pratica, estando muito mais relacionado com aquilo que nós queremos que o jovem seja. Os estudos académicos vão comprovando, um após o outro, que a competição em escalões abaixo dos 13 anos tem pouquíssimo valor, até porque, o mais importante nestes escalões etários é a riqueza de diferentes práticas desportivas. Deveria ser, assim, valorizado, o modo e a oportunidade de correr, saltar, agarrar a bola, lançá-la, etc, em lugar do resultado de cada uma destas ações.

Até porque, na verdade, está também demonstrado que o fundamento genético e psicossocial é imensamente mais válido para a formação de um atleta de elite. O trabalho de Ross Tucker e Malcolm Collins que a seguir citamos demonstra isso mesmo, ficando claro que se pode “construir” um atleta de elite em pouquíssimo tempo, assim ele comporte uma mistura de talento genético e variabilidade de experiências desportivas.

Carece, assim, de fundamento científico o foco que colocamos no resultado do jogo, na atuação do árbitro, no “erro” no gesto do jovem atleta. Importante é viver pequenas experiências de sucesso que motivem para a continuidade na modalidade, identificando-a como algo de rico e generoso em termos de divertimento, oportunidade de crescimento e evolução, capacidade de valorização pessoal dos nossos jovens.

O que não carece de fundamento científico é isto:

“These studies of skill-based activities challenge the theory that performance is constrained by accumulated hours of deliberate practice. Studies of sport reveal that elite athletes rarely complete 10 000 h before reaching international levels. For example, 28% of elite Australian athletes reached elite status within 4 years of taking up the sport for the very first time,13 while international level wrestlers, field hockey players and footballers had accumulated only 6000 h, 4000 h and 5000 h of training, respectively.

A systematic approach to talent identification and training has also been able to produce a world-class skeleton athlete within 10 weeks of first exposure to the sport. Athletes were chosen based on sprint performance, anthropometrical characteristics and power, which favoured individuals with prior training in other sports. A period of training followed, and athletes were able to achieve top six rankings in international competition and Olympic participation within 14 months, ‘leap-frogging’ more experienced competitors.

It was concluded that talent transfer, based on innate abilities and ability developed through playing other sports, can be used to accelerate the acquisition of expert performance into very short time frames, which explains why elite athletes often perform significantly less than 10 000 h of deliberate practice.”*

Amanhã há treino!

* Ross Tucker e Malcolm Collins, “What makes champions? A review of the relative contribution of genes and training to sporting success”, Br J Sports Med 2012;46:555–561. doi:10.1136/bjsports-2011-090548